Domingo, Junho 28, 2009

Michael

Não é hipocrisia. Todo o mundo falava mal, debochava, mas é nesses momentos que calculamos o tamanho da perda. É como um familiar de quem a gente acha que não gosta, mas depois percebe que gosta muito, que respeita, admira e por quem, no fundo, torce. Ele era um ídolo, um dos últimos remanecentes. E não um ídolo político, social, sua revolução comportamental era quase nula. Seu sucesso era apenas musical, e isso é tão transgressor! Alguém que consiga ser grande apenas com a música!

Eu já o defendi antes aqui. Defendi sua inocência, sua ingenuidade, defendi a possibilidade de ele ser realmente o que dizia ser, ao invés do que os jornalistas parciais diziam que fosse.

Seu próximo show seria grandioso, o colocaria de novo no posto de Rei, todos falariam do seu talento, das suas canções, das razões que nos fizeram nunca esquecê-lo. Mas sua morte provou que ele nunca deixou tal posto. Ainda bem.

Segunda-feira, Maio 11, 2009

Comentários

É assim: antigamente este blogger não tinha lá muitos recursos, como um sistema de comentários. Para tanto, era preciso pegar um sistema de fora e “instalá-lo” no blog. Eu escolhi um sistema da globo, bobagem minha, mas uma indicação que na época me pareceu útil. Utilizei esse sistema por anos, até que resolvi repaginar esse local, dar uma cor, uma cara nova. Teve um preço: o novo modelo não aceitava a migração do sistema de comentários antigo, aí tudo foi zerado. Por um breve tempo tive acesso aos comentários, até pensei em salvá-los num arquivo, organizando-os por data, por postagem, até pensei em pagar algum adolescente necessitado e bonitinho pra fazer isso pra mim, mas não fiz, e agora a globo.com suspendeu as antigas contas gratuitas e talvez meus comentários tenham se perdido pra sempre no ciberespaço. Não sei se, se eu tivesse uma assinatura, poderia resgatá-los, mas, por hora, perdi. Perdi, sim. Acabou.

Uma pena. O passado deste blog é como um álbum de fotografias, e mesmo que eu o encerre, gostaria de tê-lo como lembrança. São memórias, algumas toscas, outras profundas, mas memórias de toda a tolice e riqueza que fui e sou. Minha escrita pobre, ora bonita, minhas opiniões bobas, ora certeiras, e os relatos que são. Houve conversas aqui, e eu adorava as conversas, adorava me sentir lido, entendido e até admirado. Escrever era uma necessidade, e o passado, de um adolescente ainda adolescente mesmo após os vinte.

É incrível que daqui eu tenha conhecido amigos, amantes e quase um namorado. Talvez eu precise explicitar como foi agradável e ainda é ter conhecido Valter, Valéria, João, Luís, outros que não chegam tão perto, outros que vêm de longe. De Minas, João Pessoa, Brasília, que aproveitavam a vinda a São Paulo para me conhecer. E até os apenas virtuais, o mocinho parente da Sophie Ellis-bextor, o argentino que se ofendeu com o meu “latino”, o padre que veio me aporrinhar por causa do Papa, Guilherme, que sumiu, e outros, alguns outros, efêmeros como parte de um poema da Cecília Meireles. Não posso me esquecer dos amigos “reais” e “pré-blog”, que mesmo longe, ainda passaram aqui vez em quando, e dos que surgem de súbito, dizendo que me procuraram na Loca. Você está certo, eu não vou mais lá, mas é incrível que eu ainda seja vinculado àquele lugar. Faz parte de mim, sim. Obrigado por me ajudarem a manter o blog e a acreditar que o que escrevo tem valor.

Mas é passado. A minha escrita é cada vez mais esporádica, os comentários também. E não posso mais fuçar os arquivos explorando plenamente a memória, porque a conversa faz parte dela. O que me desanima. Além da minha preguiça de viver, ou ao menos de viver pra fora. Tenho um texto aqui incompleto, e o planejava parte de três textos, todos sobre a minha ínfima experiência profissional. Poemas e contos são raros também. E acho tudo muito pobre... Acordar tem sido uma luta, mas tenho desejos de arrumar a casa, enfeitar a estante, comprar roupas, mudar o penteado, tentar me dedicar mais à academia, descobrir as origens da minha família, fazer amizade com os jovens com quem convivo. Domingo um menino de quinze anos me acompanhou até em casa – ele tem uma barriguinha linda! Tenho vontade de ganhar dinheiro, comprar parafernálias, caixas bonitas pra guardar coisas velhas, de um dia ter um carro, quem sabe uma casa. Mas estou vivendo o que deveria ter vivido há uns três, seis anos, me sinto sem tempo, fracassado. Comecei uma análise, mas não curti muito, tudo tão clichê, então eu tenho medo de ser como meu pai?, eu tenho medo é de ser fraco, ruim, arrogante, mimado, tenho medo do meu caráter. Talvez eu pare, é bem possível. Quero começar a nadar, voltar a estudar alguma coisa, quero ver se enfim aproveito minha saudosa manhã, sem que pra isso eu me sinta tão exausto.

Mas vim aqui para dizer que tudo o que conversamos, o que veio daí pra cá, está guardado, é parte da memória, mas talvez eu não consiga mais visualizar com tanta nitidez. É uma pena, mas tudo tem de ter um fim, não é?

Aviso ainda que os comentários agora são moderados. Não vou mais tolerar ofensas e deboches ao que me é íntimo. Depois de seis anos, tenho esse direito.

Sábado, Maio 02, 2009

Bernardo Soares



E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância — irmãos siameses que não estão pegados.


do Livro do Desassossego.

Sexta-feira, Março 20, 2009

Clodovil


Burguês, sim. Reacionário, sim. Elitista. No entanto, índio, gay, artista. Não votei nele, nem votaria, mas parava para assisti-lo, escutar seus impropérios e talvez até, quem sabe, admirá-lo. Clodovil sabia ser insuportável, mas verdades cruéis eram despejadas entre seu palavreado afetado. A moça do Senado era feia, sim, fazer o quê? É ótimo que alguém no Brasil tenha coragem de dizer isso. Brasília também é uma feira, como bem ele constatou.

Clodovil jamais será um herói, tamanhas contradições e contrastes de sua personalidade. Ele próprio não sabia conviver com seus paradoxos. Queria ser homem hétero, loiro de Berlim, mas era daqui, desta terra de ninguém, e uma das bichinhas mais caricatas da TV. Queria porque queria ser conservador, sendo subversivo. Não era ícone gay, mas era um ícone, outros rótulos não cabiam. Símbolo deslocado e solitário. Representante oficial na Política de meio milhão de outros deslocados e solitários. Um anti-herói. Com toda a carga – positiva e negativa – que a expressão tem. Foi o que tinha de ser.

Segunda-feira, Março 16, 2009

Ano novo

Só pra dizer que ainda estou aqui. Só pra dar um oi, prometer que daqui a pouco volto.

E pra falar que só agora, três meses, quase três meses depois criei coragem pra ir falar com o Glaciano de novo. Ele perguntou se eu tinha orkut, mas eu não sei se eu mostraria meu perfil a ele. Eu perguntei do seu telefone, ele me deu. Agora, quem sabe.

Mas preciso lembrar, preciso saber o que eu realmente quero com ele. Só uma amizade já seria lindo, mas tenho essa mania patológica de sexualizar tudo. Posso estragar tudo assim.

Mas quem sabe.

Segunda-feira, Dezembro 29, 2008

Reminiscência



É. Dois mil e oito ainda não acabou.

Tive um reencontro. Rápido, muito rápido, um tanto frio, mas que eu gostei, que me deixou nostálgico, pensativo, e com algum carinho no peito. Seu nome é estranho, e só hoje percebi o quanto é estranho: Glaciano. Estudamos juntos por anos no Ensino Fundamental, ou ginásio, como era costume chamar, de um tempo muito marcante pra mim, responsável por quase todas as marcas que carrego. Ainda nos encontramos em outra escola, no Ensino Médio, ou colegial, mas esta já é uma época sem importância.

Glaciano nunca foi popular, ou exatamente bonito, mas foi sempre doce, sereno, educado, eu diria até que elegante. Uma pessoa muito simples. Dá pra ver que ainda é assim, e, embora esses doze anos passados, continua um menino.

Não tenho lembranças ruins dele, nunca participou das minhas humilhações, talvez até por sua personalidade pacífica, e ainda por isso não sei dizer se ele compartilhava das opiniões, as piores possíveis, que os meninos populares tinham sobre mim. Ele é muito discreto. Mas talvez não seja apenas isso, acho que ele gostava de mim. Um pouco só, quem sabe, mas gostava. Hoje disse que sempre me vê e lembrou bem do meu nome. Em menos de dois minutos de conversa, ele se mostrou mais do que eu. Já casou, separou, está “conhecendo uma menina”, não fez faculdade e tem uma filha de sete anos com síndrome de down – detalhe desnecessário a uma pessoa com quem não tem intimidade e que não vê há tanto tempo, mas detalhe que ele me deu.

Quis tanto pedir seu telefone, chamá-lo pra sair qualquer dia desses, beber, conversar, sermos amigos, ele é um resgate que eu queria fazer, mas não tive coragem. Se eu fosse apenas um CDF, o cuzão da escola, mas sou mais do que isso. Sou uma pessoa de opiniões e estilo de vida que poderiam assustá-lo, ou despertar seu preconceito. Sou gay, plenamente, no sentimento e na razão, no olhar e no julgamento que faço sobre tudo. Ele é apenas um menino simples e doce, que poderia se assustar terrivelmente com a novidade que eu representaria. Um menino que poderia me despertar, não é difícil, um amor novamente impossível.

É amargo que tenha de existir essa distância, essa limitação. Mas não há o que fazer. Talvez eu o procure, tente uma aproximação maior, tente conhecer o “terreno”, mas é provável que eu me frustre, que ele não abra espaço ou que eu fraqueje e não leve adiante esse eu que ele me devolve. Talvez nem nos vejamos mais.

Mas foi bom tê-lo de novo na minha vida, mesmo que tão breve, que só por hoje. É bom sentir esse carinho.

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

Por um 2009 sticky & sweet




Cheguei ao auge de minha carreira como viado: vi a Madonna bem de perto. Tão perto que certos efeitos nem vi direito, o que me fez achar tudo quase simplesinho demais. Tão perto que a maravilhosa performance da careta “Devil wouldn’t recognize you” me passou meio despercebida. Aquelas luzes me vinham disformes, eu só via a lataria na qual elas eram projetadas. Mas é o de menos, pois escolhi ver a Madonna de perto, de muito perto e paguei o preço de deixar o impacto de certos efeitos pra lá.

É estranho perceber que aquele mito é só uma mulher. Pequena, frágil e tão... feminina. Sim, Madonna não é gay como eu a enxergava, ela é muito hétero, Madonna é uma mulherzinha. Tanto que acho deselegantes tantas frescuras ao redor dela. Acho justo que a cantora esnobe a elite que tenta usar sua influência econômica para aparecer às suas custas – a elite existe para ser esnobada –, mas para que impedir que seguranças, apenas trabalhadores, olhem para ela? Para que ser tão inacessível ao público? Sei que Madonna é uma popstar, do tempo em que popstars eram assim mesmo, mas podia ser melhor. Madonna podia ser mais gay, mais latina, mais negra, mais tudo aquilo que a levantou e a mantém onde está. Por outro lado, vê-la tão pessoa comum não só me faz pensar quão besta certa gente é ao idolatrá-la tanto, mas também que qualquer um de nós pode ser o que ela é, porque também somos pessoa comum, homenzinhos e mulherzinhas. E bichinhas.

Enfim, valeu a pena, mesmo. Meu bezerro de ouro a poucos metros de mim, um dos momentos mais importantes do ano.

No resto, coisinhas:

Há exatamente um ano eu tentava sair de um poço escuro e inútil, sem razão de existir, tão bobo que minha demora nele me mostrava tolo e imaturo demais. Então mergulhei no ócio natalino de uma maneira que me fazia lembrar a infância e tudo que eu sempre quis ser, um moço livre a andar de bicicleta e tomar sorvete num domingo de sol quente. Eu rasguei o leve tecido que me impedia de viver com um passo bem simples, mas que há muito tempo eu não dava.

Este ano passeei de bicicleta muito pouco, meu hábito foi diminuindo conforme eu não encontrava mais tempo pra fazê-lo, principalmente pela minha dificuldade de aproveitar o dia desde a manhã. Tentarei em 2009 acordar bem mais cedo, que a noite não me serve mais.

Tive um reveillon e um aniversário legais e experiências profissionais desastrosas. Primeiro fui demitido da porrinha que eu fazia, depois chamado de volta, o que me deu o gostinho de dizer um não bem bonito. Tão doce dizer não, isso liberta. Aí entrei numa sala de aula pela primeira vez e quis incendiar a escola na primeira semana. O ápice do desrespeito, da alienação, da mediocridade. Passei pouco tempo lá e não quero mais voltar.

Foi então que uma luz surgiu. E o lugar onde eu sempre quis trabalhar me chamou. Não pro cargo que eu desejava, um menor, mas na região mais conveniente pra mim. Está sendo ótimo, embora eu tenha de enfrentar o mesmo público da escola, mas agora com a autoridade de uma empresa privada, que enxota a pontapés de seguranças quem incomoda demais. A mediocridade, a pobreza, a alienação ainda existem, mas ainda me encontro no universo de alguma cultura, alguma educação. Sou peixe bem pequeno lá dentro, mas quem sabe seja uma porta.

Meu trabalho (e minha acidente formação acadêmica) me mostra talvez uma sina: crianças e adolescentes. Há vezes em que sinto nojo, medo, raiva desse pessoal, mas outras sinto pena, simpatia, talvez algum carinho, e um certo tesão (pelos jovens mais velhinhos, ok?). Acho até que gosto deles vez em quando. Mas não, isto ainda não me dá a menor vontade de ser pai. Não sei se agüentaria conviver com uma criança vinte e quatro horas por dia...

Consegui superar um ano de academia! Com resultados ainda aquém do que quero, mas já estou mudado, e o importante é isso, estar mudado. Porque em 2009 quero mudanças, muitas e boas. Este ano quis e tentei fazer mais amigos. Não consegui. Continuo com os mesmos poucos, e algumas dúvidas. Ando com uma preguiça terrível de sair de casa, o que não me ajuda tanto no quesito social. Nem amoroso.

“Eu que não creio”, agradeço a deus por encerrar este ano sem angústias emocionais. É tão bom! Tive alguns rascunhos de relacionamento este ano, alguns flertes, algumas paqueras, todas com problemas bem gays e contemporâneos e fecho esses dias adotando um discurso que não era meu. Agora eu não quero um namoro, quero estar só, saudável e alegre, pra me divertir. Este “agora” é bem “agora” mesmo e acho que é porque um relacionamento pra mim nunca combinou com “saudável” e “alegre”. Até conheci uma pessoa que até quer algo comigo, mas comete erros que eram meus antes. Cheio de mazelas e cobranças e verdades, com um discurso que me pede justificativas e desculpas. E eu não tô a fim de me desculpar nem de me justificar. “Não quero”, palavras que libertam.

Les Chansons d’Amour foi o filme deste ano. Lindo, lindo, lindo, atual e um pouco triste e um pouco feliz. “Lava minha memória suja no seu rio lamacento” e “Ame-me pouco, mas ame-me por muito tempo”, verdades que libertam.

Músicas, algumas tantas: Insensatez, de Fernanda Takai, Poema dos Olhos da Amada, da Bethânia, Cripple and The Starfish, do Antony and The Johnsons, I Started a Joke, de um Mike Patton cantando a minha infância, e Decadénce avec Élegance, da Deborah Blando (!) são redescobertas que ainda me acompanham.

Um homem: Mike Roberts, meu novo amor.

Mas sem livros, não li nada este ano. Em 2009 talvez eu leia. Quer dizer, tive algum momento especial com Patativa (Só canto o buliço da vida apertada, / Da lida pesada, das roça e dos eito. / E às vez, recordando a feliz mocidade, / Canto uma sôdade que mora em meu peito), mais nada. No teatro, Elke Maravilha. Esplendorosa! No cinema Heath Ledger finalmente me fez gostar do Coringa e me despertou um tesão canalha. É só.

Minha família pediu cuidados, que talvez se prolonguem.

Já este blog perdeu um pouco de sentido. Acontecimentos pequenos me distanciaram dele, me deixaram pouco à vontade para escrever. Não sei ainda o espaço dele na minha vida ano que vem. Quem sabe.
 
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